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Da confiança

Veio, esta semana, o presidente da Altice admitir que está por um fio o sistema de ajuda para combate a incêndios florestais e logo revi na memória o espetáculo avassalador que foi ter o lume ali ao pé de casa há uns 40 anos. Os adultos todos em polvorosa na tentativa de salvar a aldeia e as carrinhas de caixa aberta a tirarem-nos, aos pequenos (na altura as aldeias ainda tinham crianças), daquele inferno. Em 2017 percebi que, afinal, só rondei a porta do purgatório naquele dia. A imagem pintada a carvão, da estrada enegrecida pelo lume em Pedrógão e das carcaças de automóveis carbonizadas, pintava o inferno na terra.
Ora, nesta semana, logo que vieram a lume as afirmações de Alexandre Fonseca, recordei abril de 2017 – dois meses antes da tragédia de Pedrógão –, quando se procederam a alterações profundas no comando da estrutura da Autoridade Nacional de Protecção Civil.
Entretanto, nesta quinta-feira, soube-se da demissão do responsável do Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal, o SIRESP que nos disse Alexandre Fonseca poder ter os dias contados: 30 de junho, data do contrato que vincula a Altice.
Basta ter passado nas últimas semanas pelo interior centro do país para perceber que a escassez de incêndios desde 2017 e as intensas chuvadas dos últimos meses criaram ali novos paióis de dinamite florestal.
Recordo números do incêndio de junho de 2017: 66 mortos, 261 habitações atingidas, mais de 53 mil hectares varridos. Alguém tem de nos assegurar que podemos ter confiança na capacidade de proteção das populações.

16.04.2021