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Do Mário Vargas Llosa

Cem anos de solidão (1967) de Gabriel Garcia Marquez e Conversa na Catedral (1969) de Mário Vargas Llosa marcaram uma geração de leitores. Os dois escritores, que partilharam na juventude ideias e ideais, foram grandes amigos até ao dia em que o segundo deu um soco no primeiro conforme revela Mega Ferreira no seu recente livro “Desamigados”.

Enquanto o seu sucesso literário caminhava em paralelo, foram ambos agraciados com o Nobel, politicamente foram-se afastando. Garcia Marquez manteve-se fiel às opções da juventude enquanto Vargas Llosa se deslocou progressivamente para a direita liberal.

Tendo optado por residir na Europa a cabeça e o coração de Vargas Llosa nunca esqueceram o Peru e a América Latina, como esclarecem livros como A Festa do Chibo, sobre a ditadura de Trujillo na República Dominicana; O Sonho do Celta, que revela a investigação de um diplomata irlandês à escravatura em que, já no século XX, viviam os trabalhadores no Congo belga e no Peru e o recente Tempos Ásperos que recorda o golpe patrocinado pela CIA nos anos 50 que marcou até hoje o destino da Guatemala e do resto da América Latina. Há poucas semanas, por acaso,  veio parar-me às mãos uma edição de “Lituma dos Andes”, que nunca tinha lido, que descreve a atividade do Sendero Luminoso, grupo “maoista” que espalhou o terror durante duas décadas no Peru. A prisão do seu líder, Abigail Guzman, em 1992, ficou célebre pela exibição pública do prisioneiro numa gaiola vestido de presidiário.

Estas recordações bailam há dias na minha cabeça a propósito das eleições presidenciais do Peru no próximo domingo. As circunstâncias e o perfil dos candidatos finalistas não permitem acalentar grandes expectativas sobre o futuro imediato do Peru, dos mais fustigados países do Continente pela atual pandemia, mas é pretexto para recordar a intervenção política de Vargas Llosa no país que o viu nascer. 

Nos idos de 1990 o escritor concorreu contra Alberto Fujimori. Entre um populista e Llosa, já assumidamente liberal, os eleitores optaram decididamente pelo primeiro. Porém, a carreira de Fujimori terminou quando, aproveitando uma visita de Estado ao seu país de origem, aproveitou para pedir asilo político, fugindo ao julgamento que o esperava em Lima. Já a campanha eleitoral tinha sido marcada por polémica devido às suspeitas de “el chino”, conforme era tratado pelo povo, não ter nascido no Peru, condição exigida para a candidatura. 

Contudo, o apelido Fujimori continuou a ensombrar o Peru, com a mulher e filhos a disputar a sua herança política, assumindo à vez ou em simultâneo a respetiva ambição presidencial. Como numa novela mexicana, a política esteve na origem do divórcio do casal pois foi a própria mulher que, para se vingar da recusa do apoio do marido ao seu desejo de participação, denunciou a corrupção deste. Da guerra familiar saiu vencedora a filha Keiko que aos 19 anos substituiu a mãe como “primeira dama” do Peru após o afastamento desta.

Keiko, que se candidatou em 2011, perdeu para Humala, o candidato da esquerda e esteve mais tarde detida por acusações de financiamento ilegal no âmbito do processo “Lava Jato”. O escritor optou então por Humala. Voltou a candidatar-se em 2016, perdendo desta vez para o direitista Kuczynski, apoiado por Llosa, que defendeu com convicção que a vitória de Keiko legitimaria a ditadura do pai da candidata. Agora volta a concorrer tendo como adversário Pedro Castilho, apoiado por setores de esquerda. E Vargas Llosa? Passa uma esponja pelas apostas anteriores e apela ao voto em Keiko com o pretexto de esta ser a forma de impedir que o Peru caia em catástrofe igual à da Venezuela. Fraco argumento de quem em eleições anteriores se rebelou contra as opções então existentes que nas suas palavras significavam optar “entre a sida ou num cancro terminal”.

O escritor que, além dos setores intelectuais e políticos, frequenta agora também meios mundanos após o seu casamento com a antiga mulher de Júlio Iglésias, revela aos 85 anos um vigor físico e intelectual notável. Mas, se como escritor está, por direito próprio, na galeria dos notáveis a sua carreira política acumula contradições e equívocos. Um livro com a história da sua vida será certamente um sucesso retumbante mas escrita por ele próprio constituirá, não tenho dúvidas, o maior best-seller da sua carreira.

04.06.2021