Fintar a solidão

O que nos foi acontecer!

Dou por mim, várias vezes ao dia, perante esta exclamação, que é pequena, confesso, para a inquietação latente em que, de há uns meses a esta parte, me encontro.

Em muito pouco tempo, quase de um dia para o outro, as nossas vidas e o mundo ficaram de pernas para o ar. Sobretudo para quem, como eu, acredita que só vale aqui andar pelas pessoas com quem nos cruzamos. Que amamos, com quem aprendemos e a quem ensinamos. Pelas pessoas que, por mais diferentes que sejam, nos servem de espelho e nos dão a reconfortante noção de comunidade. As pessoas que nos fazem rir. E também as que nos fazem chorar. As pessoas, todas as pessoas, que têm a capacidade de nos fazer sentir.

Ora, o bicho que entrou, sem aviso prévio, nas nossas vidas - e cuja imagem, apesar de microscópica, não deixa de ser majestosa – ataca em várias frentes e, mesmo sem testarmos positivo, acaba por nos infetar.

Já não bastava atirar-nos, débeis, para uma cama de hospital, ou, na pior das hipóteses, matar-nos, este vírus, que me recuso a tratar pelo nome, ao obrigar-nos à abstinência do contacto e da convivência, abre crateras diárias na nossa alma (ou, para quem prefira, no nosso coração) e empurra-nos para a solidão, como que a exigir que estejamos sozinhos, apenas e só connosco, para que possamos concluir, de uma vez por todas que, isolados não resistimos.

Mas há, felizmente, quem o saiba fintar e, com estoicidade idêntica à empregue nas lutas pela liberdade, lhe resista.

É o caso do companheiro que, apesar de lhe serem proibidas as visitas à mulher que, há mais de um mês, tem internada na ala psiquiátrica do hospital, se dirige duas vezes por dias à instituição, pelas 12h00 e pelas 18h00 e pede, com gentileza, ao funcionário, o favor de entregar à mulher que não pode ver - e que mais do que nunca está a precisar dele - um envelope que carrega o seu chocolate preferido.

Todos os dias.

Duas vezes por dia.

Sem palavras escritas ou ditas.

Apenas o chocolate que, entregue, naquelas horas mágicas, se assume como um poderoso poema de amor. 

Que venha, depressa, a vacina. Mas, enquanto não chega, a par dos comportamentos responsáveis a que estamos civicamente obrigados, saibamos fintar, em segurança, a solidão a que o vírus nos quer reduzir e que também pode ser fatal.

30.10.2020

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