Buscar

Da imortalidade

«Também se diz que os leitores são uma espécie em vias de extinção. Nisto não acredito, e talvez a pandemia nos tenha permitido provar que não é verdade. Estou convencido de que os seres humanos podem ser definidos enquanto espécie como animais que leem, e enquanto formos capazes de sobreviver neste planeta continuaremos a ler. Nascemos com o impulso de decifrar o mundo e encaramos tudo em redor como se uma história estivesse a ser contada para nossa edificação.

Deste impulso emerge a antiga metáfora do mundo como um livro — um livro que lemos e em que também estamos escritos. E é possível que derive desta metáfora a ideia de que ler é uma atividade alquímica, pois permite-nos transpor as tais supostamente insuperáveis barreiras do tempo e do espaço (…) O ato de ler, de termos um livro nas mãos, enroscados numa poltrona ou tranquilamente sentados no autocarro ou num avião, na retrete ou na banheira, de barriga para baixo na relva ou deitados de costas na cama, folheando o livro para a frente e para trás, procurando uma passagem preferida sempre que nos apetecer, tão devagar ou depressa como acharmos melhor, permite que os outros continuem a viver na nossa leitura e que nós continuemos a viver nas palavras dos outros. Só através do ato de ler, e de mais nada neste mundo, é possível esta feliz imortalidade».

[Alberto Manguel, em artigo publicado hoje, 03/09/21, no ‘Expresso’]


Marta Romão, diretora-geral BDC - Empower to Lead

banner.jpeg