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Da morte

«Normalmente a morte tem uma dimensão pessoal e o luto que nos atinge, desabrido, ardente e radical, tem uma conjugação no singular. Eduardo Lourenço também viveu assim os seus lutos. Lembro um dos últimos, há precisamente sete anos atrás, quando morreu a sua mulher, Annie. Há um manuscrito de Lourenço onde se pode ler: “A Annie acaba de morrer. Eram quatro horas menos um quarto deste 1º de Dezembro, de 2013...” E continua: “A longa agonia silenciosa da Annie [...] restitui à vida uma espécie de esplendor póstumo, o da ausência tornada enfim sensível. De fora fica apenas o lençol branco da minha inexistência sem ela.” (…)

Teixeira de Pascoaes, que escreveu “Arte de ser português”, quis ser enterrado num caixão em forma de lira. O caixão de Eduardo Lourenço tem, qualquer que seja a sua forma, a forma de Portugal, do qual ele foi (e será para muitas gerações futuras) um explorador e um cartógrafo, um detetive e um psicanalista do destino, um sismógrafo e um decifrador de signos, uma antena crítica e um instigador generoso e iluminado. Depois dele, todos podemos dizer que nos entendemos melhor a nós próprios (…)»


(excerto da homília de Tolentino Mendonça na missa de corpo presente de Eduardo Lourenço, na íntegra aqui https://expresso.pt/cultura/2020-12-03-O-caixao-de-Eduardo-Lourenco-tem-a-forma-de-Portugal.-A-sublime-homilia-de-Tolentino-Mendonca-na-missa-de-corpo-presente-do-filosofo )

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