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Da espuma das sextas

Seria impossível passar pelo Sexta Letra e não fazer qualquer tipo de referência às sextas-feiras, sobretudo às que nos recebem hoje, de braços fechados, até porque também delas há que manter distanciamento, pois não fossem meramente a continuação das quintas, das quartas, por aí fora…
O sentido de sexta perdeu-se. Foi interrompido por tempo indeterminado. Perdeu-se no meio dos pães de banana, das aulas de yoga online, do rolo de papel higiénico, das palminhas à janela. Perdeu-se e ninguém deu conta.
Aquela ideia/sentimento, que hoje é longínquo, mas que quase sempre foi difícil de descrever, quando este dia chegava, quando chegavam as avalanches de mensagens nos grupos de whatsapp, quando o nosso “first world problem” era quem iria ceder a casa para mais um jantar com aquele grupo com quem vemos de manhã o sol nascer em Santa Apolónia ou simplesmente que se acaba sentado num degrau qualquer do Bairro Alto a conversar por horas, a ouvir o estalar dos copos de plástico nos pés dos que passavam. 
Hoje não nos é possível estar sentado num degrau com alguém. Quer dizer, é, mas faltam-nos copos, falta-nos a noite (e “terna é a noite”, já nos segredava F. Scott Fitzgerald).
Este dia da semana tornou-se numa maldição, ou como aquela tia velha, chata e repetitiva, de quem só nos lembramos em datas especiais, como a sexta-feira santa.
Eu aceito tudo: termos perdido o Carlos do Carmo a uma sexta, o uso de máscara na rua, até a má cadeira que tenho em casa e onde me sento diariamente. Agora tirarem-me a sexta-feira, o sentido que ela dava ao fim de uma semana de trabalho?
Às vezes até sinto falta de acordar com o quarto a cheirar a fumo, porque a roupa também desmaia quando chega a casa, ou com uma terrível dor de cabeça que além de pedir água, pedia também mais noção para uma próxima, mas voltaria a fazer tudo igual, porque além das saudades que as sextas me deixam, mais saudades ainda tenho de saber que os sábados eram sempre dias perdidos.
Sextou.

12.02.2021